A Viagem – Ribeirão Grande a Criciúma – Parte I

publicado em:29/04/20 9:20 PM por: Jurandir Figueiredo Historias e Fatos-RG

1ª publicação – Domingo, 27 de Abril de 2008

A Viagem de José

José Braz Silva, natural de Ribeirão Grande, professor, hoje reside em Criciúma, faz a narrativa da viagem que seu pai fez na década de 50, quando foi para Criciúma trabalhar nas Minhas de carvão, fiquei extremamente satisfeito em encontrar esse Grande conterrâneo do Distrito, e fico honrando em postar sua história. José tem um amor as suas origens que me fez acelerar a ideia de ampliar o Site do Ribeirão para todas as Comunidades que integram o nosso Distrito, sua animação e presteza, com certeza será um exemplo para ampliarmos cada vez mais o arquivo eletrônico de nossas comunidades.
Jurandir S Figueiredo

Viagem – Parte I

Na casa da dindinha Candinha em Ribeirão Grande, município de Laguna, povoado de pescadores, havia uma expectativa de partida. Na medida em que a data prevista se aproximava, uma melancólica saudade antecipadamente apertava o coração, escasseando os diálogos, fazendo verter uma lágrima e outra entre soluços abafados, entrecortados por recomendações de minha avó que ali nascera e se criara, sem jamais conhecer outras aragens, elaborando suas fantasias à cerca da vida nas cidades, baseadas em comentários de pessoas do lugar que se aventuravam em conhecer cidades distantes.

“Cuidem bem das crianças! A vida na cidade é perigosa, não é como aqui no sítio onde todos se conhecem, um cuida do outro e Deus de todos!”
Criança parece ter uma memória emocional muito aguçada e as emoções daqueles momentos me acompanharam vida afora e, à medida que vamos envelhecendo e nos tornando mais sensíveis ainda, passam a mexer com nossas lembranças provocando uma certa nostalgia.

 

Pracinha de Ribeirão Grande.
Por entre as árvores, a capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
(Fotografia de maio de 2003)

Gostaria de fazer uma retrospectiva revivendo aqueles momentos, lugares e fatos e sondar os sentimentos, ideais e incertezas que certamente matutavam na cabeça de meus pais, pessoas simples que ali viveram até então, sem jamais sonharem em deixar os parentes e amigos para fixar moradia e tocar a vida num bairro de periferia de cidade, com outra cultura, outros hábitos, outros valores e outras necessidades.

 

Ribeirão Grande – Laguna.
Chão da casa da Vó Candinha, de onde partimos para Criciúma.
(Fotografia de maio de 2003)

A casa da dindinha Candinha continua ainda tão acesa em minha memória quanto naquela inesquecível noite da despedida. Um pouco retirada do centro do vilarejo, à esquerda da capelinha, se afigurava como um ponto final de um desvio da estiva, estrada que seguia para o “matatú”, onde ficava o engenho de açúcar de meu avô materno que tive a felicidade de conhecer: Zé Manézinho.

 

Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, de Ribeirão Grande
(Fotografia de maio de 2003)

De um branco confundível com as manchas deixadas pela tinta que se depreendera pelo tempo e que nem dava para distinguir mais onde começava a parte de alvenaria e onde terminava a parte de pau-a-pique do engenho de farinha, se destacava por entre o verde escuro da chácara ao sopé do morro e o verde claro da pastagem que se estendia em direção à capelinha branca.
Sobre a mesinha de pés torneados, coberta por uma toalha de rendas de bilros e encostada à parede da saleta, um tosco oratório se abria todo dia deixando à mostra a imagem da pombinha do Divino Espírito Santo, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Coração de Jesus.
Tia Maria acendia então uma vela em um castiçal de esmalte já encracado pelos restos de vela derretida, cruzava o rosário entre os dedos da mão direita e iniciava suas orações diárias.

 

Casa de meus avós maternos: Zé Manézinho e Tereza de Bem Silva, em Ribeirão Grande
(fotografia de abril de 2002)

Atrás da casa, estendia-se morro acima, uma chácara com pés de café, laranjeiras, jabuticabeiras, pitangueiras, gabirobeiras dentre outras espécies que minha tenra curiosidade ainda não se decidira explorar por completo, contentando-se em contemplar a grande pedra coberta por bromélias, orquídeas e outros organismos próprios daquele habitat, sobre o qual espalhava-se copiosamente um velho araçazeiro do campo que em época de colheita ficava carregado de adocicados frutos.
Por sobre um barranco ao lado esquerdo da casa, perfumados mal-me-queres atraiam multicores borboletas na primavera, onde, em dias de sol quente, volta-e-meia era surpreendido caçando aqueles insetos e repelido por minha mãe que não queria que eu me expusesse ao sol para não ficar doente. Minha irmã “Ica” (Maria) e eu, pela manhã, íamos brincar com os primos Nascimento e Conceição que moravam bem próximos da casa da dindinha.

Atravessávamos um terreno coberto por uns arbustos da família das solanáceas conhecidas popularmente por “sete-saias”, cujas flores brancas trombetiformes serviam de matéria-prima para as nossas brincadeiras no engenho. Sob esses vegetais a água formava pântanos com córregos que para atravessar tínhamos que pisar sobre os pedaços de madeira, tijolos e o que estivesse disponível para nos desviarmos da lama. Quando não acabávamos escorregando os pés e caindo no lodo, eram os tamancos que deslizavam e ficavam boiando sobre a água. Abríamos então a boca a chorar e o socorro não tardava a chegar.

Leia a parte II

Enviado por: José (Braz) Silva

 



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