A Viagem – Ribeirão Grande a Criciúma – Parte III

publicado em:29/04/20 7:55 PM por: Jurandir Figueiredo Historias e Fatos-RG

Publicada em – Domingo, 27 de Abril de 2008

Estação do KM7 37, onde tomamos o trem para Criciúma

(Fotografia de maio de 2005)

– “Olhem lá! É a Companhia Siderúrgica Nacional” – chamava a nossa atenção meu pai, que já fizera o trajeto outras vezes.
– “É mesmo…” – retrucou minha mãe – “Vejam, crianças! Está toda iluminada com luz elétrica. Lá é Capivari de Baixo…!”
Para mim, aquilo era a grande primeira novidade. Só conhecia, até então, a luz do lampião da igreja e as pombocas de corozena (querosene) da casa da dindinha. Entre o frio de inverno que aumenta mais à medida que a manhã avança com sua claridade crescente, chegamos finalmente à estação da localidade de Trinta e Sete, que nem sequer uma estação possuía para acomodar os passageiros.

As pessoas aguardavam o trem ao longo dos trilhos. Os adultos descarregaram então a mudança que ficou exposta na grama úmida não muito distante da linha do trem para facilitar o embarque. Embora já beirando os cinqüenta anos de distância entre o acontecimento e o presente, ainda lembro daqueles móveis e objetos lá expostos à curiosidade dos presentes: um baú para guardar as roupas, cujas paredes se prendiam uma a outra por meio de encaixes tipo chave e fechadura, dispensando o uso de pregos. Algumas peças de enxoval de minha mãe que ela se orgulhava de ter tecido com as próprias mãos no tear do dindinho: mantas, toalhas de mesa de fios de linho, roupas de cama, etc. Uma cama de casal, uma mesinha de sala, gamelas para se lavar, outras bugigangas de uso doméstico. Em um caixote de sabão “são paulo”, gradeado com achas de bambu, algumas galinhas volta e meia esticavam o pescoço por entre a grade e cacarejavam como que reclamando da demora do trajeto e das más acomodações ou, quem sabe, para contemplarem as novidades. Após tudo ter sido convenientemente amontoado de bom jeito e com os devidos cuidados, minha mãe me deu a incumbência de permanecer ali cuidando de tudo, enquanto ela e os demais enveredavam para a bodega de dona Prudência para tomar um cafezinho. Ali permaneci imóvel por uns tempos, enquanto os demais permaneciam na venda, sob o olhar de minha mãe que me observava de longe.
De repente, um apito forte e um chumaço de fumaça preta despontou na curva e uma locomotiva com toda fúria de um monstro cortou os ares parecendo estremecer o solo. Aquele monstro negro soltando fumaça pelas ventas, totalmente estranho e inesperado para mim, deixou-me em pânico, querendo fugir para perto de meus pais, mas ao mesmo tempo permaneci estático, perplexo pelo impacto do susto. Abri a boca a gritar desesperadamente e todos correram assustados para me acalmar.

Estação do Km 37, onde avistamos a Igrejinha. Próximo situava-se o Café de Dina Prudência, onde os passageiros iam tomar café antes de embarcar no trem.
(Fotografia de maio de 2003)
Mal o trem parou e as pessoas se apressavam em entrar com malas, bolsas e outras bagagens, cada qual querendo se acomodar da melhor forma possível, atropelando os que pretendiam desembarcar naquela estação. Aos poucos fui me familiarizando com o trem que a cada momento oferecia novo atrativo.

Ao despedir-se em cada nova estação, dava um apito e em seguida fazia uma manobra que desestabilizava os passageiros, empurrando-os para frente e para trás bruscamente fazendo com que todos procurassem algo no que se firmar.
Não demorava muito sem que o guarda-trem aparecesse em seu uniforme militar de caqui amarelo com boné estilizado achatado na testa, acompanhando o estilo da vestimenta, batendo portas e passando de vagão em vagão, passageiro por passageiro, picotando os tickets das passagens.
Na medida em que as estações iam se sucedendo também ia havendo uma renovação dos passageiros. Debruçado à janela extasiava-me com o panorama das cidades e o colorido das paisagens que apresentavam matizes os mais variados, perdendo-me em abstratas divagações que o embalo do movimento do trem em sintonia com o seu barulho peculiar passava por rápidas madornas que eram interrompidas com um novo fato.
A cada estação era despertado pelos anúncios dos vendedores ambulantes que rapidamente cruzavam o vagão oferecendo as mais variadas guloseimas: cartucho americano, pé-de-moleque, cocada, camarão recheado, galinhos, etc. Sem falar que na estação de Jaguaruna crianças com chaleiras e bules vendiam o precioso líquido: água.
Meu pai, para nos agradar e quebrar um pouco a monotonia da viagem, acabava comprando um ou outro doce para nós. Volta e meia um cheiro de fumaça misturada com fagulhas de carvão invadia o vagão, causando irritação às vistas, pois viajávamos em 2a classe e os vagões ficavam mais próximos à locomotiva, conseqüentemente mais desconfortáveis e sujeitos à maior poluição.

 

Sítio do vô materno Zé Manézinho em Ribeirão Grande.

Na foto: meu filho Tarquínio e os netos Arthur (9) e Vinícius (3)
(Fotografia de maio de 2003)

Leia a parte IV
Enviado por: José (Braz) Silva

 



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