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Família Marciano e Mariazinha

Segunda-Feira, 21 de Julho de 2008 | 3 comentários

Foi em torno de 1910, no município de Laguna chamado Ribeirão Grande, que Marciano e Mariazinha casaram-se, dando inicio as famílias Fidélix, de Bem, da Silva e Fidélis. Mariazinha, com 19 anos, era a filha mais nova de Antônio Albino e ao casar-se, para não abandonar o pai que já estava no segundo casamento, continuou morando com ele e sua esposa Joana. A família multipolicou-se rapidamente. Havia uma lenda na cidade que até a sétima filha, uma poderia ser bruxa, e devido a este motivo, ao nascer a quarta filha, colocaram-na o nome de Benta. Apesar da lenta, a família não parou na sétima filha. No décimo primeiro parto, para a felicidade de Marciano, veio o primeiro filho homem, José, ainda assim gêmeo com outra mulher, Maria, sendo que ela demorou em torno de cinco horas a mais para nascer. No décimo segundo parto, veio novamente um homem, porem já nasceu sem vida, ocorrendo também o falecimento de Mariazinha com apenas 39 anos. Nesta época, Marciano estava com várias madeiras compradas para construir uma casa nova, mas com a perda de Mariazinha continuou morando com o sogro. Em 1931, 3 meses após a perda de Mariazinha, o pai dela, Sr. Antonio, também veio a falecer, ficando Marciano, viúvo, com seus 12 doze filhos: Iraci, a mais velha com 18 anos, Ana (conhecida como Niquinha), Maria de Lurdes (conhecida como Pequena), Benta, Teófila, Custódia, Leduvina, Terezinha, Inês, Maria do Carmo, Maria e José, os gêmeos com um ano e cinco meses. Todos permaneceram por três meses de luto sem sair de casa. Na casa em que moravam não havia luz nem água. Para iluminar usavam lamparina de querosene, e a água eles buscavam na cachoeira funda, que serviria para beber e também para o banho que era em uma gamela de madeira. Com a perda da mãe, as filhas tiveram que assumir os serviços de casa, as mais velhas freqüentavam a roça usando chapéu de palha. Benta, era o braço forte do pai, pois adorava fazer o trabalho mais pesado, como cuidar dos bois, Pequena ficava em casa teando, Terezinha assumia os afazeres domésticos, como lavar e cozinhar, e os pequenos buscavam a água e cuidavam do cafezal que havia em volta da casa. Marciano também ia para roça e a noite ia pescar. As refeições eram feitas no chão encima de uma esteira, normalmente comiam arroz de posta, cuscuz e bolo de milho. Apesar de tudo que faziam, tiveram uma infância boa. Em frente a casa que moravam havia um grande pátio, ali brincavam de bandeira (uma brincadeira semelhante a pega-pega) e também de pular amarelinha. Marciano criou os filhos com muita dificuldade e muito trabalho. Sentia muita saudade de sua Mariazinha, e contava os filhos que quando ia dormir passava a mão na beirada da cama achando que ia encontrá-la. Foi sempre um pai e ao mesmo tempo uma mãe para os filhos, ensinando-os a serem honestos e respeitar principalmente os mais velhos. Por ser uma família muito grande, a comida era reduzida, Benta era muita danada e brincalhona, durante o café, ela costumava esfregar as mãos nos fatos de polvilho (uma bolacha caseira), assados na brasa por Teófila, para assim ninguém mais querer. Isto acontecia também quando havia carne em casa, Benta muito esperta, dava uma lambida nos bifes que seria dividido e com isto acabava comendo tudo sozinha. Aos domingos, de dois em dois meses, ocorria uma missa, todas as irmãs saiam de Ribeirão Grande, iam caminhando até Ribeirão Pequeno, mais ou menos uns 40 min, para assistir a missa das 9h. Durante o trajeto, até Pedra Sura, elas iam descalço e a partir dali colocam seus tamancos até chegaram a Igreja de São Brás. Aos poucos as filhas foram casando e quando Benta casou veio morar em Porto Alegre, logo em seguida começou a trazer as irmãs, sendo Terezinha a primeira a vir. Marciano trazia seguidamente as filhas a Porto Alegre, que depois não queriam mais voltar, com isto resolveu se mudar para cidade grande, trazendo por último José. Alugaram uma casa na Av. Praia de Belas, perto de onde Doca e Benta moravam. Passado algum tempo que já morava em Porto Alegre, agora na Miguel Teixeira, Marciano, com 45 anos, empregou-se em uma Fábrica de Móveis, emprego este que o genro Gercino e o amigo Aparício conseguiram. Marciano já estava viúvo havia 14 anos, dizia que não tinha casado de novo para não espalhar os filhos que eram pequenos, pois as madrinhas queriam leva-los para criar, mas Marciano não permitia por quer todos juntos. Gercino apresenta Leocádia, uma senhora de Laguna que também morava em Porto Alegre, para Marciano, com quem casou e permaneceu junto por 20 anos. Casaram-se na Igreja Pão dos Pobres, ele com 59 anos, ela com 49 anos e virgem, usando ainda um vestido cor de rosa. Ela ajudou e cuidou muito bem de Marciano, ganhando o papel de mãe e avó dos filhos e netos de Marciano, nesta época ainda estavam solteiros os filhos Terezinha, Inês, Do Carmo, Maria e José. E para completar a família, pegaram para criar Lucia Monteiro, na época com oito anos. Terezinha não aceitava ver o pai pagando aluguel, então comprou uma casa com duas peças, para todos irem morar na Rua 1º de Maio. Nesta casa, todos os domingos havia um encontro de família, onde todos os irmãos se reuniam e traziam seus filhos. José, quando se casou com Terezinha, construiu uma casa nos fundos deste terreno trouxe sua esposa para morar lá. Inês e Maira do Carmo também se casaram e foram morar com seus respectivos maridos. Em 1954, Terezinha casa-se com Hilarino. Em seguida Lucia, na época com 16 anos, também se casa e constrói mais duas peças no terreno. Em fevereiro de 1955, Maria do Carmo, no parto de seu terceiro filho, falece e o bebê também não sobrevive. Ângelo, viúvo de Do Carmo, vai morar na casa de Terezinha com seus filhos. Lá, Maria ainda solteira, ajuda a cuidar das crianças que ainda eram pequenos, pois assim elas não seriam afastadas da família. Mais tarde Ângelo e Maria se casam. Marciano foi sempre muito vaidoso, gostava de andar sempre arrumado. Gostava também de escutar rádio, principalmente noticias, palestras e comentários, tinha admiração por Getúlio Vargas. Era muito amigo dos filhos e dos netos. Leocádia foi uma avó exemplar, ajudou muito com os netos emprestados, principalmente os filhos de Terezinha na qual moravam todos juntos. Em 1964, com 79 anos, Marciano veio a falecer. E Leocádia faleceu 10 anos depois. Os filhos todos se casaram e a família aumentou cada vez mais. Marciano e Mariazinha tiveram em torno de 80 netos, destes surgiram bisnetos, trinetos e até alguns tataranetos, e cada dia que passa esta grande família cresce um pouco mais. E foi assim que tudo começou, estas duas sementes que germinaram e deram todos estes frutos que hoje aqui estamos, formou-se esta grande arvore. Houve quatro sobrenomes: Fidélix, de Bem, da Silva e Fidélis, isto porque o escrivão trocava ao registrar os nomes, ficando assim sobrenomes diferentes, mas todos somos frutos de um único amor, somos uma única família, diferentes no nome, mas iguais nas origens.

Enviado por: JULIO CESAR DA SILVA


Comentários

Permalink #1 #1 - José (Brás) da Silva 29/07/2008
Gostei do seu relato, Júlio Cesar.Que bom que gente jovem como você Esteja preocupado em registrar a história de seus antepassados. Isto não é apenas um mero saudosismo. Antes , é estabelecer parâmetros, Fazer uma avaliação de por onde andamos, como e quanto caminhamos e, Porque não , até onde chegamos. “Ser presença é aceitar o passado...questionar o presente e dinamizar o futuro. O passado construiu o nosso presente. Somos frutos dos valores que nos passaram Nossos antepassados. É interessante esta história da Benta. No tempo de nossos pais toda família grande Tinha um Bento ou uma Benta, para evitar o aparecimento de um bruxo ou uma bruxa Na família. Acredito de tratar de resquício das crendices açorianas. Você fez referência à Cachoeira Funda. Sempre ouvi referências a esta cachoeira e No meu imaginário de criança me ficou a idéia de um lugar sombrio, cheio de histórias. Ainda tenho vontade de conhecê-la nem que seja o leito por onde corria. O luto...outra tradição muito forte no lugar. Lembro-me de quando meu avô Zé Manezinho faleceu. Minha mãe vestiu-se de preto dos pés à cabeça, até lenço preto. Aquele luto deveria perdurar por um ano. Tão logo o aconteceu o enterro do finado E minhas tias começaram a tingir as roupas, pregar tarja preta nas golas das camisas E casacos dos homens. Após um ano, viria o branco-e-preto e aos poucos cores claras. Nem falar em cores berrantes como o vermelho. Era verão...e após o 7º dia rumamos de madrugada para pegar o trem no Km-37. E minha mãe com aquele calor de verão, caminhando por aquele sertão da Maricota, toda de preto, suando... Se morresse outro parente mais achegado o luto recomeçava. Parecia que as pessoas se auto flagelavam pela perda do ente querido. A gamela me faz lembrar dos banhos “tchecos”... Só se tomava banho de gamela. A gente se aproximava da gamela com água morna e tcheco... tcheco...tcheco...A aspersão de de água morna pelo corpo inteiro com as pontas dos dedos. Pois quem Caberia em uma gamela, salvo as crianças ?... E por falar em utensílios de madeira... Aos domingos a gente ia ao terço da igreja Onde o capelão Antônio Silva lia um texto da Bíblia e depois fazia uma prática (homília no linguajar litúrgico de hoje) cheia de ensinamentos. Volta e meia as rezas eram ditraídas pelo toc..toc... dos tamancões dos Senhores de Idade que já alquebrados pelo peso da idade não tinham mais energia suficiente para Levantar os pesados tamancos. Os utensílios domésticos eram de madeira, de ferro , esmaltados ou de barro. Quem da nossa geração ribeironense que não lembra dos alguidares de barro, das caçarolas, dos boiões... Os alguidares eram os nossos pratos. E as refeições das crianças eram servidas na esteira estendida no chão. Comia-se muito peixe com pirão de feijão. Quando não ovos estralados fritos, com Farinha. O café era colhido nas próprias chácaras das famílias , secos na eira, pilados em pilão e torrados em grandes tachos . O açúcar também era de produção própria : o açúcar grosso (mascavo). Outro costume que você faz relembrar era a prática de sair de casa de tamanco ou descalço para ir à festa e lavar os pés nos córregos d’água para colocar os sapatos, Escondendo os tamancos na capoeira. Mas este hábito os imigrantes italianos daqui também tinham. Lembro-me também de como morriam mulheres de parto naquele tempo...Aínda não fui afim de pesquisar se já havia cesariana na época. Uma amiga minha me contou uma vez que a sua irmã mais velha, casada, cada vez que saía de casa para ter filho deixava uma carta escrita ao marido fazendo as recomendações e se despedindo da família, pois não tinha certeza de retornar com vida... É isto aí, Júlio Cesar. Vamos continuar a relatar nossas histórias de vida. Parabéns por sua significativa descrição da trajetória de sua família.

Permalink #2 #2 - Noeci- filha de Custódia de Bem 30/07/2008
Meu orgulho é muito grande de pertencer a essa família, quando lembro do Dindinho "velho como chamavamos", sentadinho naquela cadeira, aos domingos quando nos reuniamos na casa da tia Terezinha, sinto uma saudada muito grande e um aperto no coração. Obrigada Julio Cezar por esta lembraça de infância.

Permalink #3 #3 - Teresinha 21/05/2009
Pois é, Noeci, realmente dá saudade! Eu não tive muito este contato com o Dindinho, só tinha quando ele ia pro Ribeirão Grande passar um tempo conosco, te digo, eram maravilhosos. Como era bom ter o nosso Dindinho conosco, Minha Mãe ficava muito feliz de ter o pai dela por perto, uma vez que ele foi tão cedo prá Porto Alegre. Eu também me sinto muito feliz de pertencer a esta família.

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