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CHAMINÉ

Segunda-Feira, 28 de Julho de 2008 | 4 comentários

Chaminé, que apontas para o infinito como um marco rústico de distante passado... Hoje, deslocada em meio ao progresso, manténs viva a imagem de nossa rica historia. Símbolo inerte de constante lembrança, recordas aos jovens as peripécias de mineiros audazes que, no anonimato de despojadas vidas, se embrenhavam pelas galerias tortuosas, extraindo do fundo da terra o negro tesouro. Em paga, num processo moroso e dolorido, abdicavam de suas vidas, que se esvaiam pelos pulmões carcomidos.
As entranhas íngremes da mais rude rocha ainda conservam os vestígios de muitos mineiros que se exauriram em copioso suor, em meio ao pó e ao perigo, garimpando com garra o negro minério. Num estranho processo de simbiose, as energias dos heróis subterrâneos eram sugadas pelo ambiente e transformadas, sabe-se lá por que estranha magia, em cimento solúvel de espessa argamassa, como se precisássemos de um alicerce-base para dar consistência ao nosso progresso. Por isso, quando o carvão queima, vermelho, nos altos-fornos, o mineiro sabe, diferentemente das demais pessoas, que o seu suor está ardendo na mesma fornalha.
Foste outrora, singela chaminé, o recôndito abrigo de alegres bandos de ledas andorinhas que, ao cair da tarde, buscavam em teu seio o aconchego noturno. Foste a atalaia de um povo simples, que, dia e noite, em seus afazeres, ouvia o conclamar de teu estridente “berro”, lembrando que, à curva do sombrio corte, já despontava o saudoso “trem-horario”, trazendo gente de muitos lugares para trabalhar na mina da Próspera.Ou seria o trem-carvoeiro que se dirigia à Caixa de Embarque para transportar o minério, a um tempo raro e valioso? Hoje, tão rota e desfalecida. És um “Big-Ben” moribundo, cuja importância histórica não foi trazida à nova geração, para quem pouco representas. Mas para mim, que cresci à tua sombra, partilhando o frenesi que teu assovio gerava na vida do bairro, embora tenhas sido calada e amordaçada pelo progresso, continuas a ser a imagem de um tempo áureo e um marco vivo de nosso passado, a se projetar teimosamente através do tempo. E, assim como eu, também os que outrora viveram contigo ainda sentem calar fundo na alma teu insistente e fiel chamado.
Nós te compreendemos e te somos solidários, velha chaminé desativada, pois o tempo passou para ti e para nós, nivelando-nos pelo envelhecimento. Em ti, ele enegreceu as paredes de fuligem acumulada; em nós, branqueou os ralos cabelos com a geada dos anos...

Enviado por: José (Braz) da Silva


Comentários

Permalink #1 #1 - Jurandir Silva Figueiredo 28/07/2008
Amigo José, me orgulha muito receber e postar teus escritos. Artista de nosso Distrito que esbanja talento e emoção em suas composições. Amigo nossas lembranças tambem são nossas riquezas, e você chegou aqui no Ribeirão Virtual para nos brindar com suas belíssimas obrás . Obrigado !

Permalink #2 #2 - jose da silva 28/07/2008
Acrônica acima me valeu o 1º lugar na modalidade crônica adulta no 6º Concurso Literário 2005, promovido pela Academia Criciumense de Letras, e consta da Revista Acadêmica VII . A chaminé fez parte de um complexo formado por uma usina inaugurada em 1º de maio de 1943 e que gerava energia elétrica para a Carbonífera Próspera. A chaminé expelia a fumaça da usina e continha uma sirene que apitava marcando os horários de "pegada" e de "largada" dos turnos de tabalho. Por sua vez a comunidade se baseava em seus apitos para organizar suas atividades. Era como que um despertador coletivo. Durante muito tempo presenciamos a revoada de andorinhas num lindo ritual ao final da tarde, culminando com sua acomodação no interior da chaminé para dormir. Na década de 90 funcionários da saúde da prefeitura municipal colocaram em sua abertura um enorme saco plástico representando uma "camisinha" no dia de combate à AIDS, o que afastou as andorinhas para sempre.

Permalink #3 #3 - TOMÁZ DE AQUINO PLÁCIDO 28/10/2008
Sempre é bom comentar das coisas de nosso bairro Peóspera. Principalmente das coisas da nossa infancia, assim como: Chaminé, Caixa de Embarque de Carvão, Os caminhoes carrega de carvão, O trem Carvoeiro sendo carregado a Sirene da Próspera que tocava por três vezes em seguida as 6:00 hosas da manhã etc.

Permalink #4 #4 - Karline Grando 21/09/2011
Padrinho, que palavras mais lindas sobre a história da chaminé! Mesmo sem escutar o apito que organizava as atividades da população da época, ao ler suas palavras sinto-me um pouquinho naquele momento e lugar. Que orgulho ler um texto tão profundo, poético e emocionante de meu padrinho! Quanta coisa me ensinou! Parabéns pelo prêmio e pelo talento de tuas palavras... Karline Salvador Grando - Içara - SC.

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