Domingo, 27 de Abril de 2008 | 1 comentário
Em meus inocentes seis anos, embora não fosse prática na família comentar com as crianças acerca de decisões dos pais, já captara no ar e nas entrelinhas das conversas dos adultos o que estava por acontecer. Por um lado lamentava deixar tudo aquilo ali e por outro despertava em mim a curiosidade da viagem. Nunca tinha ido sequer a Laguna, nem para nascer, pois o serviço de parto era auxiliado por uma parteira da comunidade.
Criciúma ia se formando em minha fantasia de criança com grandes atrativos. É interessante quando se tem apenas o nome de uma cidade sem qualquer referência de imagem e como a nossa mente trabalha! E quando criança parece que as fantasias voam, se multiplicam e ganham as mais variadas formas, coloridos e sabor. E falando em sabor, minha mãe sempre falava que na “Ponta”, entrada do Ribeirão, havia uns pés de cambucás onde ela e suas amiguinhas de escola se deliciavam com os frutos roubados dessas árvores. Até hoje fico a imaginar a forma, o colorido e o sabor dos cambucás que ela dizia comer com tanto prazer.

Capela de Santo André da “Estiva dos Pregos”,
onde fui batizado pelo Pe. Antônio Marangoni.
(Fotografia de maio de 2004)

Ribeirão Grande, Laguna – SC. (fotografia de setembro de 1998)
Era meia-noite de um dia de inverno de 1950. Os bois já cangados no carro pareciam impacientes por encurtarem a penúria daquele momento. Tio Mané Candinha iria levar a mudança até o Km 37 para lá pegarmos o trem-horário. Naquele momento cada canto da casa e cada objeto tinham um significado especial: a mesa onde meu pai partia as melancias fresquinhas colhidas na roça que ficávamos tentando adivinhar serem amarelas ou vermelhas...
o fogão-de-lenha ao redor do qual ouvíamos os “causos” dos mais velhos em noites frias de farinhada...
o oratório... os tipitis amontoados no canto do engenho... a bolsa de palha onde minha irmã mais velha, Luzia, ainda guardava com cuidado os materiais da escola que abandonara precocemente para ajudar na roça e nos afazeres da casa.

Ribeirão Grande, Laguna – SC
(fotografia de setembro de 1988)
Um café rápido com cuscuz e beiju regado a ovos fritos para forrar bem o estômago para a longa viagem foi nossa última refeição.
Apertos de mãos, “até-a-voltas”, abraços muito apertados entre choros sufocados e beijos molhados de lágrimas quentes com as últimas recomendações marcaram a tão custosa e dolorosa despedida. Tia Joana ainda fez o último agrado, trazendo um pedaço de bolo assado na folha de bananeira que fizera na véspera e um saquinho com uma dúzia de ovos de suas galinhas. O carro pôs-se em movimento... ouviram-se os primeiros “eira-boi” e os últimos acenos se perderam pela escuridão da noite. Para trás foram ficando as lembranças, as coivaras, o aconchego da casa da dindinha e dos parentes. A lagoa de Santo Antônio parecia dormir com o silêncio da madrugada.
Aos primeiros rubores da manhã encobria-se a torre da capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que meus pais não se cansavam de contar acerca de sua construção com muito orgulho. Fora construída de ovo em ovo, de pão-de-ló em pão-de-ló, de animal em animal que os fiéis doavam por pagamentos de promessas, ora para proteger o terreiro das pestes, ora em ação de graças pelas fartas ninhadas e que nutriam as quermesses, revertendo-se em dinheiro vivo para a compra de material para dar prosseguimento à obra. Foi suado para um povo tão sofrido e desprovido de recursos a sua construção, mas se orgulhavam da conquista. Afinal, aquele templo representava o que havia de mais sagrado para eles, concentrando em si todos os valores relativos às suas crenças.
Ali se reuniam aos domingos para o terço dominical, ocasião em que o capelão Antônio Sebastião, primo de meu pai, fazia a “prática” (sermão) para os fiéis. Pessoa versátil havia sido seminarista por alguns anos, era tido como cidadão respeitado, pois além de conduzir espiritualmente seus conterrâneos, dava-lhes homeopatia quando doentes e outras orientações de ordem prática.
A estrada cortava os cafezais de cujas flores brancas recendia um aroma inebriante que ao despertar da aurora causava uma gostosa sensação de bem estar. O carro-de-bois cantava morro acima quebrando o silêncio da natureza que se confundia com os longos espaços de silêncio dos retirantes.
Não demorou muito para despontar o tão temido “Sertão da Maricota”, o trecho mais ingrato da caminhada. Tratava-se de um íngreme morro custoso de ser vencido. Comentava-se com certa dose de exagero que se tinha que subir “de gatinho”.
As conversas giravam em torno de lembranças da coivara que limpavam por aqueles confins, das roças cultivadas por aqueles sertões, as tempestades em que se defendiam debaixo de troncos de árvores e de pedras, das reses que levaram a pé para Santiago ou pra Siqueiro e outras lengalengas do dia-a-dia da vida que levavam.
Ica, minha irmã menor, dormia no colo de minha mãe. Por minha vez, agarrado aos fueiros do carro-de-bois, entre um cochilo e outro escutava silenciosamente a conversa dos adultos. Minha irmã Luzia, que já era mocinha, também dava os seus apartes no papo dos mais velhos.
Leia a parte III
Enviado por: José (Braz) Silva
#1 - Ailton Avelino Damázio 23/05/2008
Tenho visitado este site e admirado muito a bagagem de fotos e outras matérias culturais, regiosas e sociais.
Chamou-me a atenção especial o artigo de José Braz da Silva contando
a epopéia da viagem de sua família para Criciúma.
Emocionei-me muito, revivi com o autor suas emoções e o colorido tão especial com que relatou sua história.
Muito bonito. Parabéns ao autor e aos coordenadores do site por divulgar tanta coisa bonita.
Sou manezinho da Ilha (Florianópolis-sc) e me sinto co-irmão desta gente maravilhosa de colonização açoriana, que muito tem a ver com nossa história e nossa cultura.
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