Domingo, 27 de Abril de 2008
A Viagem de José
José Braz Silva, natural de Ribeirão Grande, professor, hoje reside em Criciuma, faz a narrativa da viagem que seu pai fez na década de 50, quando foi para Criciuma trabalhar nas Minhas de carvão, fiquei extremamente satisfeito em encontrar esse Grande conterraneo do Distrito, e fico honrando em postar sua história. José tem um amor as suas origens que me fez acelerar a idéia de ampliar o Site do Ribeirão para todas as Comunidades que integram o nosso Distrito, sua animação e presteza, com certeza será um exemplo para ampliarmos cada vez mais o arquivo eletrônico de nossas comunidades.
Jurandir S Figueiredo

A Viagem - Parte I
Na casa da dindinha Candinha em Ribeirão Grande, município de Laguna, povoado de pescadores, havia uma expectativa de partida.
Na medida em que a data prevista se aproximava, uma melancólica saudade antecipadamente apertava o coração, escasseando os diálogos, fazendo verter uma lágrima e outra entre soluços abafados, entrecortados por recomendações de minha avó que ali nascera e se criara, sem jamais conhecer outras aragens, elaborando suas fantasias à cerca da vida nas cidades, baseadas em comentários de pessoas do lugar que se aventuravam em conhecer cidades distantes.
“Cuidem bem das crianças! A vida na cidade é perigosa, não é como aqui no sítio onde todos se conhecem, um cuida do outro e Deus de todos!"
Criança parece ter uma memória emocional muito aguçada e as emoções daqueles momentos me acompanharam vida afora e, à medida que vamos envelhecendo e nos tornando mais sensíveis ainda, passam a mexer com nossas lembranças provocando uma certa nostalgia.

Pracinha de Ribeirão Grande.
Por entre as árvores, a capela de Nossa Senhora
do Perpétuo Socorro.
(Fotografia de maio de 2003)
Gostaria de fazer uma retrospectiva revivendo aqueles momentos, lugares e fatos e sondar os sentimentos, ideais e incertezas que certamente matutavam na cabeça de meus pais, pessoas simples que ali viveram até então, sem jamais sonharem em deixar os parentes e amigos para fixar moradia e tocar a vida num bairro de periferia de cidade, com outra cultura, outros hábitos, outros valores e outras necessidades.

Ribeirão Grande – Laguna.
Chão da casa da Vó Candinha, de onde partimos para Criciúma.
(Fotografia de maio de 2003)

Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro,
de Ribeirão Grande
(Fotografia de maio de 2003)
De um branco confundível com as manchas deixadas pela tinta que se depreendera pelo tempo e que nem dava para distinguir mais onde começava a parte de alvenaria e onde terminava a parte de pau-a-pique do engenho de farinha, se destacava por entre o verde escuro da chácara ao sopé do morro e o verde claro da pastagem que se estendia em direção à capelinha branca.
Sobre a mesinha de pés torneados, coberta por uma toalha de rendas de bilros e encostada à parede da saleta, um tosco oratório se abria todo dia deixando à mostra a imagem da pombinha do Divino Espírito Santo, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Coração de Jesus.
Tia Maria acendia então uma vela em um castiçal de esmalte já encracado pelos restos de vela derretida, cruzava o rosário entre os dedos da mão direita e iniciava suas orações diárias.

Casa de meus avós maternos:
Zé Manézinho e Tereza de Bem Silva,
em Ribeirão Grande
(fotografia de abril de 2002)
Atrás da casa, estendia-se morro acima, uma chácara com pés de café, laranjeiras, jabuticabeiras, pitangueiras, gabirobeiras dentre outras espécies que minha tenra curiosidade ainda não se decidira explorar por completo, contentando-se em contemplar a grande pedra coberta por bromélias, orquídeas e outros organismos próprios daquele habitat, sobre o qual espalhava-se copiosamente um velho araçazeiro do campo que em época de colheita ficava carregado de adocicados frutos.
Por sobre um barranco ao lado esquerdo da casa, perfumados mal-me-queres atraiam multicores borboletas na primavera, onde, em dias de sol quente, volta-e-meia era surpreendido caçando aqueles insetos e repelido por minha mãe que não queria que eu me expusesse ao sol para não ficar doente.
Minha irmã “Ica” (Maria) e eu, pela manhã, íamos brincar com os primos Nascimento e Conceição que moravam bem próximos da casa da dindinha. Atravessávamos um terreno coberto por uns arbustos da família das solanáceas conhecidas popularmente por “sete-saias”, cujas flores brancas trombetiformes serviam de matéria-prima para as nossas brincadeiras no engenho. Sob esses vegetais a água formava pântanos com córregos que para atravessar tínhamos que pisar sobre os pedaços de madeira, tijolos e o que estivesse disponível para nos desviarmos da lama. Quando não acabávamos escorregando os pés e caindo no lodo, eram os tamancos que deslizavam e ficavam boiando sobre a água. Abríamos então a boca a chorar e o socorro não tardava a chegar
Leia a parte II
Enviado por: José (Braz) Silva
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